Já faz algum tempo que eu queria escrever isso...
Fui assistir Supergirl e o filme foi legal e tal... mas tinha algo que me incomodava, mas eu não sabia dizer o que.
Até agora...
E não, não tem a ver com o fato do filme não seguir a HQ, até porque isso seria impossível visto que a HQ foca em uma Supergirl mais madura e essa Supergirl tinha acabado de sair da adolescência e ainda estava curtindo a juventude.
Mas para mim o problema não foi esse, o problema é que não conseguiram construir a mensagem do filme de forma clara.
Basicamente no filme o vilão (Krem) era um pedófilo que sequestrava meninas, ele matou a família da Rúthye e ela buscava vingança. A Supergirl tenta convencer ela a desistir da vingança pois isso irá mudar ela. No fim, quando está prestes a matar o Krem, Rúthye desiste da vingança e diz que só queria a família dela de volta. A Supergirl a abraça e a consola. No fim, quando a menina se afasta, a Supergirl mata Krem.
Muitos criticaram essa atitude dizendo que era hipocrisia da parte dela, que ela deveria ter deixado Rúthye matar Krem, algo do tipo "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", ou "ficou o filme inteiro falando para a menina não matar, aí ela vai lá e mata ele?".
Mas a mensagem dessa parte era: uma criança não deveria carregar esse fardo, o adulto é quem deveria protegê-la. Krem merecia morrer, mas Rúthye não merecia ter que carregar o fardo de tirar uma vida.
Eu acho que esse tipo de mensagem seria muito mais impactante se a própria Kara tivesse traçado esse caminho, se você visse na protagonista as consequências da vingança e como isso a destruiu por dentro.
Sim, a Kara também passou por uma grande perda, mas ela não tinha um alvo para a vingança que espelhasse a jornada da Rúthye e mostrasse exatamente quem a Rúthye se tornaria ao buscar vingança.
Se no clímax do filme, quando as duas estão no planeta com sol verde, a Kara surtasse e confessasse o seu trauma para a Rúthye:
VOCÊ NÃO QUER SER COMO EU!!! VOCÊ ACHA QUE EU QUERIA ESTAR AQUI? MORRENDO NESSA PORCARIA DE PLANETA DE SOL VERDE?! VOCÊ ACHA QUE VAI SE SENTIR MELHOR DEPOIS DE MATAR O KREM? EU TE DIGO... NÃO VAI! NADA VAI CURAR ESSA DOR, EU SEI PORQUE EU FIZ A MESMA COISA E NÃO MUDOU PORCARIA NENHUMA! TODAS AS NOITES QUANDO EU FECHO OS OLHOS EU VEJO AQUELE BASTARDO ME ENCARANDO, EU SINTO O SANGUE DELE NAS MINHAS MÃOS, NÃO IMPORTA O QUANTO EU LAVE, EU AINDA SINTO! EU VIM PARA A PORCARIA DO SEU PLANETA PARA PODER ENCHER A CARA ATÉ EU APAGAR!! ISSO NUNCA VAI PASSAR, RÚTHYE, ACEITA ISSO!
No fim, o ato dela matar o Krem no final deveria ser algo como: as minhas mãos já estão sujas... para mim não faz a menor diferença.
Outro ponto que tornaria o filme interessante é se ele fosse na direção oposta do Superman.
No filme do Superman o dilema acontece quando o Superman descobre que seus pais o enviaram para ser um ditador, para governar a Terra. Logo no início do filme, os androides da Fortaleza da Solidão colocam a mensagem de seus pais de Krypton para acalmá-lo enquanto ele tem seus ferimentos tratados. No fim, os mesmos androides colocam um vídeo para tocar, mas não de seus pais kryptonianos e sim dos pais adotivos terráqueos, mostrando que ele se tornou uma boa pessoa pois teve bons pais que o amavam; ele se tornou um herói pois ele amava a Terra.
Já a Supergirl poderia seguir o caminho oposto. Ela era uma adolescente quando foi para a Terra, mas ela nunca quis ser uma heroína, ela queria ficar com seus pais, morrer com a sua família. E agora ela se vê em um planeta onde tem poderes de uma deusa, onde tudo é diferente e a única família dela é um primo que ela nunca conheceu, mas que é amado por todo mundo no planeta. O discurso "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades" é empurrado para ela, mas ela nunca quis esses poderes nem nada disso. Faz total sentido ela ter ido comemorar o aniversário em um planeta de sol vermelho, justamente para se sentir normal de novo.
Queria que o filme tivesse um quê de filme de viagem na estrada de autodescoberta, só que no espaço, onde a Supergirl passa a maior parte dizendo a si mesma que não é uma heroína, tentando se afastar dessa vida, mas no fim ela se tornando uma heroína (ou quase isso).
Elas viajam de ônibus, entram em brigas de bar, causam confusão, são roubadas, sequestradas, mas no fim tudo dá certo.